terça-feira, 5 de maio de 2020

Como Subir uma Ladeira


Foto: Thásya Barbosa
Reinventar é uma palavra que pode assustar, em mim ela me da uma certa preguiça, aquela de revirar os olhos. A sensação que tenho é como se eu visse outra ladeira no meu belo caminho de ladrilhos amarelos e falasse: “Lá vamos nós outra vez”.

Eu não suporto subir ladeiras, é horrível aquela sensação de que o coração vai sair de dentro de você e eu odeio ficar ofegante. Mas por mais que seja ruim, as ladeiras sempre vão estar no caminho e todas essas sensações infelizmente fazem parte dela. É o tal processo que não dá pra fugir se você quer subir até o final.

As vezes você pode até não querer subir e tentar achar um atalho, mas muitas vezes esse atalho pode ser pior. Acredite, já passei por algumas cavernas, elas são assustadoras, escuras, tem poucos recursos pra você sobreviver e algumas fazem você voltar pro mesmo lugar de onde saiu e é muito, muito solitário.

Você também pode querer ficar no mesmo nível muitas vezes e até se acomodar nele, mas uma hora você vai cansar porque já viu o suficiente. Então, enfrentar ladeiras é algo inevitável. E se vai ser inevitável, eu tento e prefiro me divertir!

Nessas minhas jornadas em ladeiras, eu aprendi algumas técnicas bem eficientes que me ajudaram ao longo dos anos a não perder a vontade de subir, porque desistir no meio pode ser muito pior. Então a minha primeira dica é: não volte para o início, em algum momento você vai ter que subir de novo e a segunda tentativa pode ser muito mais demorada.

Outra dica muito eficaz é a hora de parar, se sentir essa necessidade, pare e descanse. Isso vai ajudar você a criar novas forças e ainda podem surgir algumas coisas bem legais nesses intervalos, como poder sentar e respirar fundo por exemplo, tem algumas ladeiras que dá até pra deitar e olhar o céu se movimentando em cima de você, é bem bonito. Aproveite esse momento sem se culpar, apenas descanse o tempo que achar necessário, por mais que pareça, ninguém vai ser melhor por chegar primeiro no topo. Se precisar dormir também, durma. E um segredinho aqui entre nós: meditar é um bônus que pode acelerar o processo.

No meio dessas ladeiras, você pode encontrar outras pessoas subindo, umas podem estar mais rápidas que você, por serem mais experientes, outras podem estar descendo e algumas, bem poucas na verdade, vão querer ajudar. Se essa ajuda chegar de forma genuína, aceite, orgulho não leva você a lugar nenhum e ter alguém pra dividir essa experiência pode gerar boas risadas. Só não esqueça que a ladeira é sua, carregar alguém pode dobrar o tempo de subida. Ah! E o mais importante pra esses encontros é: nunca, nunca se compare! Cada um tem um jeito de subir e muitos gostam de se divertir com quedas. Se alguém rir do seu ritmo ou do seu jeito, tente abstrair e se afaste, esse tipo de “subidores” gostam de roubar todas as suas forças e fazer você desistir, por isso, fique atento.

Outra coisa que pode ajudar bastante é levar algo que você goste, no meu caso, eu sempre levo meus fones de ouvido pra ouvir uma boa musica. Isso também me ajuda a não dar papo pra quem vai me atrapalhar, pois eu finjo que não ouvi dou um sorrisinho simpático e continuo a caminhada. Leve água também, se hidratar e manter sua saúde física é muito importante, ninguém quer ficar doente no meio da subida, né? E dependendo da ladeira, o socorro demora a chegar.
Levar muitas coisas também pode te prejudicar, pois o peso traz cansaço, então é melhor levar somente o que for necessário.

Não pense que sempre vai ser fácil, ou que você vai ficar apenas cansado. Cair e se machucar faz parte da subida, as vezes tem buracos, em outras tem espinhos, mas não se preocupe, tudo cicatriza e essas marcas vão te dar experiência para as próximas ladeiras, nessas horas, o importante é chorar. Sim, isso mesmo, chorar alivia a dor e desinfeta a ferida, experiência própria!

Em todos esses anos de experiência com ladeiras, percebi que não tem uma receita de bolo pra elas, tem subidas que são mais íngremes, outras nem tanto, algumas tem até escadas, mas todas são diferentes. A única coisa que elas têm em comum é o topo. É! Sabe aquela vista que antes você tinha enjoado? Pois então, você sempre vai voltar pra ela, mas sempre que você subir, tudo vai estar diferente, porque na verdade não foi a vista que mudou, é você que está enxergando de um outro jeito, dando valor a detalhes que antes nem percebia. Aprecie esse lugar, se esbalde, abane para quem achou que você não conseguiria, esse momento é só seu! Se divirta no topo, pra quando chegar a hora certa, descer! Isso mesmo descer!

Depois de anos chegando em alguns topos, eu descobri que essa é a parte mais incrível de uma ladeira, não estou falando de rolar ladeira abaixo pelo mesmo caminho que você subiu, isso é burrice! Estou falando de decidir descer por um outro lado, só pra ver o que tem de novo embaixo.

Vou dizer uma coisa pra vocês, descer é libertador! Não tem esforço algum, você só desce porque quer e quando quer! E é a hora que você mais vai se divertir, se quiser pode saltitar, arriscar uns passos de dança, comer umas besteiras, tomar até umas cervejas que nada vai te cansar, porque a descida é muito divertida!

Por isso meus caros leitores, aprendam a subir ladeiras sim e subam quantas quiserem! Mas sempre que poder descida descer! Ficar no topo tempo demais fica chato e cansa. Até porque você vai ver que colocar os pés nas raízes também é bom e faz você nunca esquecer sua essência na hora de ter que se reinventar outra vez.

sábado, 2 de maio de 2020

A Quarentena e Eu

Obra O Planeta Imóvel de Lua Leça
Fiquei me perguntando o que essa quarentena está mudando em mim, de alguma forma a mudança veio sem nem eu procurar. Ela foi orgânica, sentida na pele, tipo uma coceira, que faz você pensar que algo está estranho mas não reage, porque no fundo você quer sentir o prazer de ter que coçar até abrir uma ferida.
Eu sinceramente, no sentido mais literal e verdadeiro possível, não procurei ou me propus a estar aberta a mudanças nessa quarentena. Eu tive apenas aquele pensamento ingênuo de virada de ano com algumas propostas, mas nada extremamente concreto, foi só o momento da contagem regressiva em que você faz alguns pedidos para ter a esperança hipócrita que tudo vai ser diferente.
A verdade é que, na minha teoria, foi um pensamento tão coletivo que se concretizou.

A mudança simplesmente veio sem perguntar se estávamos prontos.

De brinde veio também uma percepção bem aguçada de tudo aquilo que tínhamos preguiça de querer investigar. Aqueles tempos de Jaiminho em que evitar a fadiga era mais prático teve que ficar para trás, ou você enxerga, ou a laranja mecânica te obriga a abrir os olhos. E nessa de abrir, você se depara com muitas coisas.


Em algum desses dias em que só estava sentada arrastando o dedo no meu celular vi o quanto estava sentindo falta dos meus amigos, respirei fundo e comecei a procurar conversas, revi fotos e senti de verdade a saudade de alguns, mas ao mesmo tempo também percebi que outros estavam ali só preenchendo espaço no meu WhatsApp. 

O mais intrigante dessa analise de amizades é que enxerguei que algumas de fato não tinham significado algum na minha vida e ainda descobri que na falta de tempo e na vida corrida de antes, essas amizades eram apenas uma desculpa para evitar a fadiga de desfaze-las. E essa desfeita nem precisaria de um textão para concretizar o “divórcio”, elas simplesmente poderiam se desfazer naturalmente. E sabe por que? Porque na verdade a troca ou a identificação não existe mais ou talvez nunca existiu, essas amizades eram apenas entretenimento, ou até mesmo protocolares. Na minha verdade – vamos deixar o minha bem claro aqui – as amizades nasceram para serem desfeitas, é duro se desapegar do romantismo que também foi criado para elas, mas a real é que cada um tem sua evolução e amadurecimento pessoal e em algum momento um vai ficar para trás, pois os ciclos são tão certos quanto a morte.

O mais louco de tudo isso é que você não precisa ser responsável por elas, porque na verdade você não é e nem nunca foi o pequeno príncipe. O que você cativa é a escolha do outro de se identificar e querer estar ali. A responsabilidade está no que você causa no outro, pois as consequências de lidar com elas serão apenas suas.
No momento em que percebi essas desfeitas naturais, também percebi que eu estava apenas entendendo o que realmente me faz bem. Nessa minha verdade, as amizades têm que me merecer e isso não é nenhuma falta de modéstia, é honestidade comigo mesma. Elas que lutem, não é mesmo?  
Bom, eu não tenho um conselho maravilhoso para dar para vocês com esse texto e essa nem era minha pretensão, isso aqui foi só um desses desabafos que ficam martelando na minha cabeça e que na falta da terapia, escrever tem me ajudado muito.
Mas conclusões precisam ser feitas quando se propõe um conteúdo, mesmo sendo só um texto solto na web. E a única conclusão em que cheguei nesses dias é que pensar é inevitável e que a palavra chave para essa quarentena, pelo menos a minha palavra: é percepção. Pois evita-la será impossível, mesmo que você não queira perceber nada, a laranja mecânica vai te perseguir.  Então meus caros, durmam com essa, ou não, porque tá bem difícil dormir ultimamente!